Ao sentir a luz das esperanças emergindo dentro de mim, um homem que sempre foi escravo de seus próprios medos e desejos, vi-me como brasa incandescente que queima continuamente. Eram sensações absolutamente novas, surreais para um homem como eu, escravo de mim mesmo. Mas a luz emergia de trevas, das minhas próprias sombras, as que eu cultivei por medo, e por tradições.
Um cidadão comum, com segredos, mistérios, e desejos, assim eu o era. Tomado por fé inabalável nas crenças e ritos aprendidos ao longo de minha trajetória. Seguidor do deus que os homens criaram para satisfazer suas terríveis ambições. Sim, eu lutei em nome de deus, as guerras mais “santas”. Purifiquei meu coração para adentrar nos ensinamentos sagrados ante a luz da verdade. Só não percebi que a verdade que me davam a alimentar-me não era minha, e sim uma verdade criada a bel prazer em nome do que é sagrado.
Sacrifiquei meus anos em nome das causas, todavia, aos poucos meus olhos tentavam enxergar o que jazia além. Em segredo minha alma relutava a aceitar todas as coisas propostas, e no absoluto sigilo escondendo-me dos olhares opressores tentava eu encontrar a face das coisas. A verdade não revelada, os mistérios escondidos, os fatos omitidos, essa era minha pretensão a galgar. Mas como fazer isto sem que fosse tomado por louco em uma sociedade passiva em seus dogmas?
Fui me abrindo, como pegadas se abrem na caminhada ante a areia do mar. Procurando ver as contradições de sua própria fé, e por que não dizer da minha própria fé. Mas tenho a convicção de que posso conhecer o deus com meus próprios olhos, e senti-lo como meus braços sem a ajuda de intermediário algum.
O criador do universo não está sentado vendo nossas almas se arrastarem na imundície de nossas ambições como uma plateia que assiste seu evento preferido. O deus que fundou os firmamentos não está parado nos céus na ociosidade dos homens. Não, de modo algum, pois um deus que prefere ser um admirador das virtudes e das luxurias não pode ser de fato um deus. Mas se existe um ser que rege as forças intrínsecas do universo, com certeza ela está no próprio ar, no próprio alimento, no próprio ser, na constante evolução e mutação dos homens. Com absoluta propriedade, se um ser instaurou a vida, também instaurou a morte, logo a morte não é maldição, é dádiva, é presente celeste, é o processo contínuo de uma jornada.
Mas os homens o personificam em “achismos”. Em imagens para o idolatrarem. E criam regras para seguir, tomando seus ensinamentos como virtudes máximas. Processam pensamentos “em nome de deus” e os ensinam como mestres do mundo. Cobram das pessoas suas almas e vendem uma fé personificada e tratada para melhor atender o seu publico. Deus virou um comércio. Sim, o Ser Maior que nossa mente não seria capaz de transcrever, se tornou algumas palavras em um texto, algumas imagens na TV, algumas cópias de manuscritos. E o nosso “redentor” simplesmente são as palavras que podemos dizer e que sabemos. Simplesmente limitamos o nosso senhor a nada, e nossa pequenez o acompanha em cada templo que para ele o construímos.
Pagamos para adorá-lo, e para muitos isto é cômico, e porque não seria? Afinal, ele precisa de um templo luxuoso, não? A constante hipocrisia da humanidade tem aclamado guerras em nome da paz. E levado sangue em nome da salvação. Grande deus o que vigia a dor lá de cima não?
Criamos demônios para justificarmos a imundície de nossa alma, porque simplesmente não conseguimos aceitar o quão podre podemos ser. Queremos um bode expiatório para depositarmos o nosso pecado, e nada melhor que demônios para isso, afinal, eles que são os espíritos maus que nos tomam e nos fazem agir de maneira diferente do habitual. Não se engane, os demônios somos nós mesmos e precisamos tomar esta consciência durante a vida, e saber que o inferno será nossa mente através das culpas e dos medos. O céu? O que seria então? Há, o céu seria a não personificação dos homens sobre deus, e sim o deus personificado nos homens.
Prestar caridade em busca de galardão? Faça-me rir. Ter uma fé esperando o dia da redenção? Faça-me rir. Seu pagamento será posto diante de vós todos os dias, pois o “reino dos céus” está em sua mente, e se você se esforça para no fim receber seu galardão você também é um hipócrita. A humanidade é escrava de anseios. É egoísta. E o bem maior que chegam a fazer, nada mais é que a tentativa de redimir seus pecados cálidos. Uma tentativa de barganhar com o Arquiteto dos Universos.
Aos poucos, aprofundando-me nos que meus olhos viam, logo vi-me como escravo de mim mesmo, e o deus que eu adorava era apenas um homem mistificado. Então, onde encontrar o deus de fato. Lamento dizer, você não o encontrará em lugar nenhum que procurar, ele não está à venda em vitrines, não está enraizado na terra e nos céus. Simplesmente não o encontrarás se o procuras, pois ele não se mede, não tem forma, cor, sabor… Simplesmente não está aqui. Mas ele é ALFA, é OMEGA, é PRINCÍPIO e FIM. É a força impulsionadora deste ínfimo ponto desta galáxia, rodeada de milhares de outras galáxias, neste universo provável.
Nasceu uma luz dentro de mim, tive uma visão daquilo que me era vedado ver, o mundo. Eis que os deuses que nos cercam alimentam apenas o nosso ego, e o manipulamos, sejam eles considerados anjos, deuses ou demônios. Simplesmente manipulamos à nosso prazer. Hoje meus próprios olhos me guiam para esta realidade que não é absoluta, e sim apenas mais uma visão entre outras zilhões. Mas já posso respirar tranquilo sem o medo de parecer mais um louco que esqueceu de deus. Porque eu sei, na minha razão e no meu coração que o encontrei de verdade, onde deveria estar. E perdoem-me, mas a liberdade que sinto hoje, me projeta a viver como um ser melhor a cada segundo, não na esperança de um galardão futuro, mas sim nas esperança de encontrar o meu próprio céu. E por certo, se é por justiça que caminhas e em nome da liberdade de tua gente, praticando o amor, o deuses não te abandonarão.